Uma escola localizada no interior do Amazonas vem aproximando ensino e território por meio de práticas ligadas à floresta e aos saberes tradicionais. Na comunidade Igapó-Açu, às margens da BR-319, rios, brincadeiras e vivências locais passaram a ocupar espaço central no processo de aprendizagem.
As ações foram fortalecidas durante o 2º Encontro de Formação Pedagogia da Floresta, promovido pela Casa do Rio com financiamento da Katia Francesconi Foundation.
A formação ocorreu entre os dias 16 e 18 de abril de 2026, na Escola Municipal de Ensino Infantil e Fundamental da Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Igapó-Açu, em Manicoré, a 260 quilômetros de Manaus.
Nesta edição, o foco esteve no cotidiano da própria escola. Professores, gestores, auxiliares, merendeiras e comunitários participaram de atividades construídas a partir das experiências vividas no território. Ao todo, 21 pessoas integraram a formação conduzida por cinco consultoras.

Formação conecta escola e floresta
Segundo Lia Mandelsberg, coordenadora do projeto, o segundo encontro aprofundou o trabalho desenvolvido pela Casa do Rio junto à educação pública da região.
“Enquanto a primeira edição alcançou uma ampla rede de escolas e atuou em diferentes frentes, o segundo aprofundou o trabalho dentro de uma única escola, localizada em uma área de conservação ambiental e que já possui longo histórico de parceria com a instituição”, explicou.
A chamada Pedagogia da Floresta entende a floresta como espaço de produção de conhecimento, cultura e convivência. Dessa forma, o aprendizado também acontece nas práticas de plantar, pescar, cozinhar, brincar e viver em comunidade.
A proposta faz parte da rotina da escola desde 2017, quando a Casa do Rio colaborou na construção do espaço escolar em diálogo com os modos de vida da comunidade.
“A formação foi construída a partir de um planejamento participativo intenso, pensado para dialogar com as principais necessidades da Escola Igapó-Açu. E a Pedagogia da Floresta parte justamente desse princípio: valorizar os saberes locais e a vida construída com, para e da floresta”, detalhou Lia.

Brincadeiras e território fazem parte do ensino
A programação reuniu práticas artísticas, corporais e lúdicas, alternando teoria e atividades ligadas ao cotidiano amazônico.
Entre os conteúdos trabalhados estiveram a Pedagogia da Onça Pintada, práticas inspiradas no Teatro do Oprimido e reflexões sobre infâncias e identidades construídas no território.
A consultora Annie Martins destacou a relação entre educação e pertencimento dentro da floresta amazônica.
“Como mulher, mãe e indígena Tikuna em retomada, vivenciar e estimular trocas sobre uma educação mais sensível foi profundamente transformador. Nesse contexto, o Teatro do Oprimido entrou como metodologia para potencializar práticas que professoras, professores e estudantes do Igapó já desenvolvem, mas agora com mais consciência”, afirmou Annie, docente de Teatro na Universidade do Estado do Amazonas.
“Com os jogos teatrais, redescobrimos nosso corpo-bicho, corpo-rio, corpo-território, impregnado pela floresta e pelo modo de viver no Igapó. O Teatro do Oprimido potencializou retomadas indígenas, costumes ancestrais e escutas sensíveis”, completou.
Além disso, o encontro incentivou brincadeiras e vivências ligadas às memórias das infâncias. Atividades como nadar no rio, remar, subir em árvores e reconhecer plantas e animais fazem parte da aprendizagem das crianças da comunidade.

O encontro também debateu alimentação e cultura alimentar amazônica. A atividade Cozinha Boca da Mata, conduzida por Renata Peixe-Boi, trabalhou o preparo de alimentos com ingredientes locais e sem agrotóxicos.
A participação das merendeiras reforçou a importância do cuidado e da alimentação dentro do ambiente escolar.
“O envolvimento de toda a equipe escolar no processo formativo reconhece que todas as pessoas da escola participam da formação das crianças e que cada função tem importância na educação”, enfatizou Lia.
“Vale destacar que o apoio de Katia Francesconi Foundation tem sido fundamental para a continuidade do trabalho, possibilitando que a formação aconteça de forma aprofundada, fortalecendo práticas já existentes na comunidade”, pontuou.
Ao fortalecer a relação entre escola, floresta e comunidade, a experiência busca manter vivos os saberes compartilhados entre gerações.
“Se o primeiro encontro expandiu em quantidade, o segundo cresceu como árvore: para baixo, fortalecendo as próprias raízes”, concluiu Lia Mandelsberg.