O Labirinto do Curupira – por Nelson Falcão

O artista visual e professor Nelson Falcão é o mais novo colunista do Amazônai Incrível. "O que se segue não é, portanto, um exercício puramente intelectual sobre mitos distantes: é uma tentativa de dar forma escrita ao que a floresta, o rio e seus guardiões invisíveis têm a dizer."
Redação Amazônia Incrível
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*Colaboração de Nelson Falcão – colunista do Amazônia Incrível

Foi durante uma viagem de barco por comunidades ribeirinhas do Baixo Amazonas, no contexto de uma pesquisa sobre mitologia amazônica, que muitos dos relatos reunidos neste artigo foram colhidos. Naquelas águas largas e silenciosas, entre uma margem e outra, homens e mulheres simples — indígenas, caboclos, ribeirinhos — compartilharam histórias que carregam séculos de sabedoria simbólica. O que se segue não é, portanto, um exercício puramente intelectual sobre mitos distantes: é uma tentativa de dar forma escrita ao que a floresta, o rio e seus guardiões invisíveis têm a dizer.

No início do mundo, Tupã deu vida a um pequeno macaco, dócil e sem nome, para que o ajudasse a cuidar de todos os seres criados. A harmonia daqueles primeiros tempos foi quebrada quando Anhangá — uma entidade sombria que habita as profundezas da floresta — sequestrou o pequeno símio, movido pelo ciúme de Tupã. O macaco seria então submetido a torturas até que a escuridão o corrompesse por completo. Transformado física e moralmente, foi devolvido ao seu lugar de origem. Ao vê-lo, Tupã lamentou profundamente: além da aparência grotesca, o animal havia perdido seu caráter.

Foi assim que o primeiro ser criado perdeu sua posição privilegiada no mundo nascente e passou a vagar pelas florestas — ainda zelando pelas criaturas que nelas habitam, mas aplicando também todas as artimanhas aprendidas nas sombras para aterrorizar os homens, que passaram a chamá-lo de Curupira.

Esse mito apresenta uma estrutura narrativa que ressoa com o Gênesis bíblico na criação de Adão — não por derivação direta, mas pelo que Jung chamaria de inconsciente coletivo: culturas distintas, separadas por oceanos, chegando a formas simbólicas semelhantes porque partem da mesma psique humana. Ao mesmo tempo, oferece uma abordagem singular ao unir elementos criacionistas e evolucionistas — afinal, trata-se da metamorfose de um macaco. A mitologia, ao explicar a origem das coisas de forma simbólica e poética, permite exatamente isso: ligar arestas existenciais, históricas e científicas sem que nenhuma delas precise se render às demais.

Arquivo pessoal

Dentre todas as deformidades do Curupira, a mais característica são os pés invertidos. É aqui que encontramos nosso fio de Ariadne — referência ao mito grego em que Teseu escapa do labirinto do Minotauro com o auxílio de um novelo dado por sua amada. Mas para que o labirinto arquitetônico de Creta, afinal, se temos os pés do Curupira? As pegadas invertidas são, por si mesmas, um labirinto: é através delas que os homens se perdem na floresta, esse labirinto orgânico e vivo que a Amazônia representa.

Do labirinto geométrico da Ilha de Creta ao labirinto vivo da Floresta Amazônica, um único arquétipo habita ambos: o guardião que encarna a dualidade. Luz e escuridão, razão e irracionalidade, consciente e inconsciente, natural e sobrenatural — tudo isso está presente tanto no Minotauro quanto no Curupira, ambos espelhos de nós mesmos diante do embate permanente com nossa própria sombra, simbolizada nesses dois mitos pelo nosso lado animal ou animalesco. Perder a consciência, a luz do conhecimento, é ceder à ignorância; é se perder no próprio labirinto. Só encontra a saída quem consegue enfrentar — conhecer, aceitar e, finalmente, integrar — seus próprios demônios interiores.

Para os povos da floresta, do indígena ao caboclo, a pedagogia do mito do Curupira responde a uma necessidade profunda de equilíbrio entre o ser humano e a Natureza. Quem mora e vive dos recursos da mata costuma dizer que, quando não se respeita a fauna e a flora, a Mãe da Mata pune os intrusos com surras de cipó invisíveis, ou com enfermidades que às vezes levam à morte. Os mitos são, então, mecanismos psíquicos de uma sofisticação impressionante: projeções da nossa própria Sombra, no sentido junguiano, que nos confrontam com a irracionalidade antes que ela nos destrua.

Lembro de relatos que me foram contados, a muito custo, por homens e mulheres simples que vivem ou viveram no interior do Amazonas, longe dos grandes centros. No início, quase sempre vinha a negação — um pudor natural diante do desconhecido e do incrédulo. Mas, após a confiança conquistada, os relatos chegavam com a seriedade de uma revelação sagrada. E no fim de cada uma daquelas conversas fascinantes, uma frase da sabedoria popular se repetia, invariável: “Mas que existe, existe.” Uma forma simples e precisa de nomear o que a razão jamais alcançará: coisa de encantado.

 

Nelson Falcão

 

*Formado em Artes Visuais pela Faculdade Belas Artes de São Paulo e com especialização em História da Arte, Nelson Falcão possui 20 anos de experiência no campo artístico (pesquisa, produção e arte-educação). Lecionou durante 7 anos na FMF – Faculdade Martha Falcão, ministrando disciplinas (História da Arte e do Design, Estética, Arte e Cultura no Amazonas, Desenho de Observação, entre outras) nos cursos de Design, Design de Interiores, Publicidade e Jornalismo.

Em 2012, foi coordenador pedagógico do Curso Virtual Arte e Cultura da SEC – Secretaria de Cultura do Estado. Em 2015, lecionou História da Arte no curso de Produção Audiovisual da UEA (Universidade do Estado do Amazonas). De 2015 a 2019, ministrou cursos de extensão no Espaço de Arte ONDENASCEMOSMITOS, uma iniciativa do artista em parceria com o Colégio Martha Falcão e apoio do IDC – Instituto Dirson Costa de Arte e Cultura Amazônicas. Desde 2017, atua como gestor de comunicação e marketing das INFS – Instituições Nelly Falcão de Souza, além de possuir um ateliê onde desenvolve sua produção artística. 

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