Conhecido como o “ouro do Tocantins”, o capim dourado vai muito além do brilho que chama a atenção de turistas. A matéria-prima, trabalhada manualmente por artesãos locais, carrega histórias de resistência, identidade cultural e sobrevivência econômica, especialmente entre comunidades tradicionais, indígenas e quilombolas.

Apesar do nome, o capim dourado não é exatamente um capim. Trata-se de uma planta da família das sempre-vivas, com talos naturalmente dourados e uma pequena flor branca no topo. É durante o período da seca que os fios ganham o brilho característico que conquistou o Brasil e o mundo

A artesã Gil Denora trabalha com o material há mais de duas décadas e encontrou no capim dourado a base para sustentar a família. “Eu criei os meninos, meus filhos fazem faculdade, e as despesas a gente custeia com o capim dourado. O trabalho não para”, conta.
Ela explica que a rotina é intensa e exige dedicação diária. “A única fonte de renda que nós temos é o aposento dele e o capim dourado, que a gente trabalha o dia inteiro, até as 10h30 da noite”, relata.

História parecida é a de Leila, hoje dona de uma loja especializada em capim dourado em Palmas. Antes do sucesso, a trajetória foi marcada por dificuldades extremas.
“Eu dormia em rodoviárias, muitas vezes na rua. Passei fome, passei muita dificuldade, fui muito humilhada na minha vida”, relembra.
De origem simples, Leila começou vendendo acessórios nas ruas e viu no artesanato uma oportunidade de recomeço. “Aqui eu falava que estava rica, porque eu tinha três panos e mais essa banquinha, meus artesanatos”, diz, com orgulho.
Encantada pela matéria-prima, ela aprendeu a técnica e decidiu também ajudar outras pessoas. “Eu abria o capim dourado justamente para dar o primeiro emprego, para ajudar as pessoas”, afirma.

A descoberta do material veio por acaso. “Eu conheci um servidor indígena que me apresentou o capim dourado. Naquela época eu trabalhava com artesanato como hippie. Eu olhei, amei, fiquei apaixonada e já comecei a trabalhar”, conta.
As peças exigem tempo, técnica e paciência. Bolsas simples podem levar até dois dias para ficarem prontas, enquanto modelos mais elaborados chegam a demandar uma semana inteira de trabalho. Os preços variam: há peças a partir de R$ 12, bolsas em torno de R$ 200 e itens mais sofisticados, como um mapa do Tocantins com relógio feito inteiramente de capim dourado, avaliado em R$ 2.200.

A colheita do capim dourado é regulamentada e acontece apenas uma vez por ano. Somente artesãos autorizados podem recolher os talos secos, enquanto as flores são espalhadas no campo para garantir a preservação da espécie. Antes da retirada, a tradicional Festa da Colheita celebra a cultura local e movimenta o turismo.
Para os moradores da região, o capim dourado se tornou um símbolo coletivo. “Trabalhar no período certo transformou o capim dourado em uma matéria simbólica para o povo daqui, para comunidades indígenas e quilombolas”, destaca um dos relatos presentes no material.
Além do valor cultural, as peças também conquistam visitantes de outros estados. Uma turista gaúcha, ao escolher um chapéu, resumiu a experiência: “Achei bem legal a proposta. É bem diferente até a forma que ele fica na cabeça. Bem bacana”.
Entre fios dourados, histórias de superação e saberes ancestrais, o capim dourado segue brilhando como um dos maiores patrimônios culturais e econômicos do Tocantins.