Documentário amazonense “Os Avós” denuncia a adultização precoce de crianças na Amazônia

Documentário amazonense 'Os Avós' retrata a adultização precoce de crianças na região e é aclamado em festival.
Redação Amazônia Incrível
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O cinema do Norte do Brasil vive um marco histórico. Pela primeira vez, um longa-documentário produzido no Amazonas se destacou na Mostra Competitiva do Festival de Cinema de Gramado, que aconteceu entre os dias 13 e 23 de agosto. O filme é “Os Avós”, dirigido por Ana Lígia Pimentel, que traz para a tela uma reflexão íntima e urgente sobre a adultização de crianças e os impactos de um ciclo familiar acelerado na Amazônia.

Um olhar sobre a realidade amazônica

Filmado entre comunidades ribeirinhas e áreas urbanas de Manaus, o documentário mostra homens e mulheres que, aos 30 ou 35 anos, já são avós. Mais do que um dado estatístico, esse fenômeno cultural evidencia desigualdades históricas e questiona as noções de tempo, destino e cuidado.

A narrativa é guiada pela voz da atriz, escritora e diretora Maria Ribeiro, que interpreta trechos do filme. Para ela, a obra “é urgente e necessária”. Segundo Ribeiro, “Ana Lígia soube ler o tempo como ninguém. É uma grande cineasta, conectada à realidade das mulheres da Amazônia, que consegue transformar a denúncia em arte”.

Da vivência à tela

Morando desde 2017 na comunidade do Livramento, em Manaus, Ana Lígia construiu o filme a partir de uma escuta sensível e cotidiana. A câmera acompanha as personagens sem imposição, revelando suas histórias em gestos, silêncios e conversas.

“Convivendo com famílias jovens na zona ribeirinha, percebi uma situação cíclica e cultural que afeta principalmente as crianças, muitas vezes privadas de afeto nas relações com as próprias mães”, explica a diretora.

A estética do filme reforça essa imersão: a fotografia de Ana Rezende transforma a luz da floresta em metáforas visuais, enquanto a montagem, assinada por Ana Lígia em parceria com a consultora Jordana Berg, alterna momentos poéticos e de confronto emocional.

Caminho até Gramado

O projeto nasceu sem grandes expectativas. Ana Lígia, que chegou a trabalhar no turismo, inscreveu a proposta em um edital público e conquistou o primeiro lugar. A partir daí, retomou sua trajetória no audiovisual. “‘Os Avós’ é fundamentado no meu desejo sincero de expor essas histórias”, afirma.

A seleção para Gramado, segundo a diretora, é “uma linda surpresa”. “Representar o Amazonas é uma honra e uma missão. Queremos mostrar que o cinema da região é potente e parte de um Brasil profundo, ainda pouco conhecido.”

Cinema nortista em evidência

Embora historicamente sub-representado no festival, o cinema do Norte já teve participações marcantes. Em 1982, o amazonense Djalma Limongi Batista recebeu o Kikito de Melhor Direção por Asa Branca: Um Sonho Brasileiro. Décadas depois, em 2020, o curta O Barco e o Rio, de Bernardo Abinader, conquistou cinco Kikitos. Em 2022, Noites Alienígenas, do Acre, foi eleito Melhor Filme, e em 2024, o Pará competiu com Mestras.

Agora, Os Avós se soma a esse percurso como o primeiro longa-documentário amazonense em competição, reafirmando a Amazônia como território de inovação estética e reflexão política no cinema brasileiro.

Uma escuta que reimagina o futuro

Com 90 minutos de duração, o filme não busca apenas denunciar, mas escutar. Ao dar voz às comunidades, propõe novas formas de pensar cuidado, maternidade e tempo. Para Maria Ribeiro, que atua como fio condutor da narrativa, o impacto da obra vai além do festival: “É uma história triste, que precisa despertar a atenção de todos, de uma vez por todas”.

A cerimônia de encerramento e a premiação do Festival de Gramado aconteceu no dia 23 de agosto, às 20h45 e o grande premiado foi o filme, “Cinco Tipos de Medo”, eleito Melhor Filme. Dirigida por Bruno Bini, a produção ainda conquistou os Kikitos de Melhor RoteiroMelhor Montagem e Melhor Ator Coadjuvante, com a performance de Xamã.

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