Produção de castanha movimenta comunidades e coloca Amazonas na liderança nacional

Safra envolve extrativistas entre novembro e março; produto vendido por R$ 4,50 na floresta pode ultrapassar R$ 100 no varejo
Redação Amazônia Incrível
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

A castanha da Amazônia é um dos produtos extrativistas mais consumidos da região Norte e também exportado para mercados internacionais. O alimento é procurado por turistas e consumidores de outras regiões do Brasil e do exterior, principalmente pelos nutrientes presentes na composição.

A castanha contém proteínas, gorduras consideradas saudáveis, selênio, antioxidantes e outros micronutrientes. O selênio é um mineral associado ao funcionamento do organismo e à imunidade. O alimento também possui fósforo e potássio, minerais relacionados ao funcionamento do corpo.

A produção segue etapas que incluem pré-coleta, coleta e pós-coleta. Na fase de pré-coleta ocorre a limpeza dos castanhais. Durante a pós-coleta, ainda na floresta, ocorre a quebra do oriço, a pré-seleção das castanhas e a lavagem. Depois, o produto é levado para secagem em estruturas conhecidas como paiol.

Dados internacionais apontam que, em 2024, Brasil, Nigéria e Bolívia responderam juntos por 70% da produção mundial de castanha. Outros países, como Gana, Peru, Gâmbia e Espanha, representaram cerca de 23% da produção. O produto é exportado principalmente para Estados Unidos, países da Europa e da Ásia.

No Brasil, o Amazonas aparece como o maior produtor de castanha, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Acre e Pará ocupam a segunda e terceira posições. Os três estados concentram cerca de 80% da produção nacional.

Entre novembro e março ocorre o período da safra, quando comunidades ribeirinhas, indígenas e agroextrativistas realizam a coleta nas áreas de floresta. Enquanto o quilo da castanha pode ultrapassar R$ 100 em supermercados do Sudeste, o produto in natura é vendido por cerca de R$ 4,50 ao extrativista.

Especialistas apontam que custos com intermediários, logística de transporte pela região amazônica e exigências sanitárias influenciam no preço final ao consumidor. A produção também apresenta variações entre os anos, o que é associado a mudanças climáticas, períodos de cheias e secas, além do desmatamento.

O extrativismo faz parte da história econômica da Amazônia desde o ciclo da borracha, no século XX, quando migrantes nordestinos chegaram à região para trabalhar na coleta do látex.

Pesquisadores apontam que fortalecer cooperativas e ampliar o beneficiamento na origem são estratégias para reduzir desigualdades na cadeia produtiva. Em Beruri, no Amazonas, uma iniciativa busca aumentar o valor agregado do produto.

A Associação dos Produtores e Beneficiadores Agroextrativistas de Beruri, criada em 1994, passou a investir no processamento da castanha e na produção de óleo e derivados. A organização reúne mais de 300 extrativistas que atuam em unidades de conservação e áreas indígenas, como Itichimitari e a Reserva de Desenvolvimento Sustentável Rio Ituxi.

Mais de 60 famílias participam diretamente do beneficiamento da castanha. Segundo dados da associação, cerca de 190 famílias tiveram aumento de renda, que pode chegar a 60%. Parte dos participantes vive em terras indígenas nos municípios de Beruri, Lábrea e Itapauá.

A gestão e as atividades técnicas da associação são conduzidas majoritariamente por mulheres. O trabalho envolve dezenas de pessoas no processamento e beneficia centenas de moradores da região.

Segundo relatos de integrantes da associação, o beneficiamento permite que os produtores tenham acesso direto ao valor gerado pela venda do produto. A organização afirma que busca pagar preços acima dos praticados no mercado regional.

O produto que chega aos mercados já limpo e embalado representa uma cadeia produtiva que envolve coleta, transporte e processamento na região amazônica.

Carregar Comentários