Entre folhas, microscópios e perguntas sem respostas prontas, a ciência deixa de ser algo distante e passa a integrar o cotidiano de meninas da rede pública. No Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), o projeto Inserção de Meninas e Mulheres nas Pesquisas sobre Biodiversidade e Mudança Climática vem despertando vocações científicas e ampliando horizontes ao colocar jovens estudantes em contato direto com a rotina da pesquisa.
A experiência começa, muitas vezes, de forma simples. “O projeto foi indicação de uma amiga. A gente fez o seletivo juntas e está sendo inovador, principalmente por conhecer mais sobre a floresta amazônica e sobre o nosso próprio habitat”, relata uma das participantes. Para ela, a vivência ajuda a transformar a percepção sobre a ciência e o território amazônico.

Vinculado ao programa CETENE, o projeto tem como foco valorizar a presença feminina nas ciências, levando em conta os desafios históricos enfrentados pelas mulheres na área. A iniciativa integra ações em diferentes regiões do Brasil e, no Amazonas, tem como um de seus principais cenários o Herbário do IMPA, uma das maiores coleções científicas de plantas do país.
“O Herbário é um espaço onde a floresta é estudada, catalogada e agora também apresentada às novas gerações de cientistas”, explica um dos pesquisadores envolvidos. Segundo ele, a proposta é despertar o interesse ainda cedo: “São jovens cientistas que se mostram aptas para compreender questões fundamentais da Amazônia, não apenas do ponto de vista ambiental, mas também pensando em bioeconomia e desenvolvimento sustentável”.

Nesta edição, quatro bolsistas participam diretamente das atividades do Instituto. Entre elas está Jennifer, que vê no projeto uma importante oportunidade de formação. “Minhas expectativas são muito boas. Espero ampliar cada vez mais meu conhecimento científico e vivenciar essa troca de experiências com as outras meninas. O programa funciona como um grande incentivo”, afirma.
O contato com o ambiente científico também dialoga com experiências anteriores das estudantes. “Eu já fiz um projeto de biologia na minha escola, inclusive aqui no INPA, sobre insetos. A gente coletou, identificou e analisou. É algo que me interessa desde pequena”, conta outra participante, reforçando como essas ações ajudam a consolidar o interesse pela ciência.

Ao longo do mês, as alunas coletam, observam, analisam e aprendem sobre o universo científico. “Cada setor e cada espaço traz uma relação com o todo”, explica uma das orientadoras. “Aqui no Herbário, temos exemplares de várias regiões do Brasil e do mundo, usados para comparação e identificação de novas espécies. Não existe biodiversidade sem a relação entre plantas, animais e outros organismos.”
Em 2026, o programa Futuras Cientistas ofertou cerca de 470 vagas em projetos de ciência e tecnologia em todo o país. A fundadora da iniciativa, Giovana Machado, chama atenção para a desigualdade de gênero nas áreas científicas, especialmente nas ciências exatas. “Essa vastidão da ciência é muito explorada por nós, mulheres, mas quando olhamos para as exatas, a presença feminina ainda é menor”, observa.
Ela também destaca um dado preocupante: apenas 4% das meninas que passam pelo programa chegam à pós-graduação em nível de doutorado. “Por isso, incentivar a permanência dessas meninas na carreira científica é fundamental”, reforça.
Quando meninas ocupam os laboratórios, ampliam não apenas seus próprios horizontes, mas também constroem um futuro mais inovador, justo e diverso. Incentivar meninas na ciência é investir em conhecimento, equidade e desenvolvimento. E, na Amazônia, esse investimento é ainda mais urgente: o bioma precisa de novas pesquisadoras. O futuro começa quando alguém acredita que elas pertencem a esse lugar.