O Dia da Consciência Negra é um momento dedicado à reflexão sobre o racismo e todas as formas de preconceito, além de valorizar a cultura, a história e as contribuições da população negra no Brasil. A data também reforça a importância de reconhecer o legado do período escravocrata, cujos impactos ainda ressoam na sociedade contemporânea.
Portanto, hoje destacamos três personalidades negras fundamentais para a formação social de Manaus: Mãe Zulmira, Irmã Helena e Eduardo Ribeiro. Cada um deles deixou marcas profundas na história da cidade, contribuindo para moldar sua identidade cultural e comunitária.
Mãe Zulmira

Nascida em 3 de setembro de 1923, às margens do igarapé no bairro Cachoeirinha, em Manaus, Mãe Zulmira tornou-se uma das figuras mais importantes das religiões de matriz africana na cidade. Ao assumir o Terreiro de Santa Bárbara, consolidou-se como Ialorixá Mãe Zulmira, presença marcante sobretudo no Morro da Liberdade, onde atuou como conselheira e referência cultural para a comunidade.
Testemunhou diferentes fases da capital amazonense: do período de estagnação após o fim do ciclo da borracha ao surgimento da Zona Franca e ao desenvolvimento acelerado, acompanhando também os desafios sociais que vieram com essas transformações. Moradores antigos contam que, nas procissões de São Sebastião, Mãe Zulmira distribuía dindins e preparava pratos com quiabo. Como recorda Francisca Scheffer: “Quando cheguei no Morro da Liberdade, em 1960, havia poucas casas e todos se conheciam. Meu pai era grande amigo da Mãe Zulmira; nas festas religiosas havia uma comida feita com quiabo — não lembro o nome, mas só ela sabia fazer”.
Em 1989, a escola de samba Reino Unido da Liberdade prestou uma homenagem histórica a ela com o enredo “Axé Mãe Preta”, que garantiu o título daquele ano. Mãe Zulmira faleceu em 13 de maio de 2007, deixando um legado espiritual e cultural que segue vivo em Manaus.
Irmã Helena Walcott

A freira Irmã Helena Augusto Walcott, nascida em Rondônia e filha de pais barbadenses — Lorenzo Walcott e Clarissa Knights — ingressou cedo na vida religiosa. Ao mudar-se para o Amazonas, dedicou-se com determinação a projetos sociais, especialmente no bairro da Compensa, tornando-se uma das principais vozes na luta por moradia digna para a população desabrigada de Manaus após a desocupação da antiga cidade flutuante, no fim dos anos 1960.
Sua atuação firme e incansável contribuiu diretamente para a criação de diversos bairros manauaras entre o final dos anos 1970 e o início dos anos 1980. Entre eles, Zumbi dos Palmares I e II, Terra Nova, São José, João Paulo II, Nossa Senhora de Fátima, Novo Israel, Armando Mendes, Japiim, Nova Luz, Santa Etelvina, Monte das Oliveiras, Lírio do Vale, Valparaíso e Redenção — muitos com nomes que refletiam a forte presença da fé cristã.
Seu ativismo, porém, despertou a oposição de grupos influentes. Irmã Helena foi perseguida, presa diversas vezes e, em 1997, precisou deixar Manaus após receber ameaças de morte, passando a viver nos Estados Unidos.
Ela morreu na capital amazonense em 13 de junho de 2022, aos 84 anos, em decorrência de falência múltipla de órgãos.
Eduardo Ribeiro
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Eduardo Gonçalves Ribeiro, nascido no Maranhão em 18 de setembro de 1862, foi um político negro de grande relevância para a história do Amazonas. Governou o estado em dois mandatos — de 1890 a 1891 e de 1892 a 1896 — e deixou um legado marcante na transformação urbana de Manaus durante a Belle Époque amazonense.
Sob sua gestão, foram erguidas algumas das obras mais emblemáticas da capital, como o Teatro Amazonas, o Reservatório do Mocó, o Palácio da Justiça e a Ponte Benjamin Constant. Esses projetos impulsionaram o desenvolvimento urbano e ajudaram a consolidar a imagem de Manaus como a “Paris dos Trópicos”.
A morte de Eduardo Ribeiro permanece envolta em mistério. Ele foi encontrado em 14 de outubro de 1900, sentado no chão de sua casa, vestido com pijamas e enforcado. No local, estavam apenas policiais que integravam sua guarda particular, já que Ribeiro exercia o cargo de deputado e presidia a Assembleia Legislativa. Apesar de o caso ter sido encerrado pela polícia como suicídio, persistem suspeitas de que ele possa ter sido envenenado, sua residência era uma chácara localizada onde por muito tempo foi o centro psiquiátrico Eduardo Ribeiro, na avenida Constatino Nery.
Aliás Constantino Nery na época era adversário de Eduardo Ribeiro e chegou a liberar um movimento armado para depor o governador que conseguiu resistir. Anos depois o próprio Constantino Nery seria governador do estado.
Sua trajetória segue como um dos capítulos mais emblemáticos da história política e urbana do Amazonas.