Amazônia monitora o ar: Aplicativo Selva amplia alerta contra queimadas na região

Aplicativo Selva amplia alerta contra queimadas na Amazônia e ganha abrangência nacional
Redação Amazônia Incrível
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Das praias de Alter do Chão, o horizonte ganhou um tom acinzentado. A fumaça que encobre o céu vem do outro lado do rio Tapajós, trazida pelo vento e pelas noites quentes em que as queimadas se espalham pelo interior do Pará. O ar pesado atravessa quilômetros, cobre bairros, invade casas e altera a rotina de quem vive na região.

Santarém está no caminho do chamado Arco do Desmatamento — faixa que corta a Amazônia do Maranhão ao Acre, onde a fronteira entre floresta e pasto se transforma em área constante de conflito. Quando a vegetação perde espaço, a qualidade do ar também se deteriora. Nos meses de estiagem, respirar se torna um desafio diário para a população.

Amazônia monitora o ar: Aplicativo Selva amplia alerta contra queimadas na região

Mesmo assim, para alguns moradores, o ano de 2025 trouxe um respiro em relação ao período anterior. O vendedor Ivan José lembra do contraste: “Olha, esse ano até que não tem muita fumaça como ano passado. Ano passado foi… a gente não enxergava nem o outro lado do rio nesse tempo. Agora, esse ano parece que deu uma imunizada, mas porque foi muito chuvoso esse verão. Não foi um verão que nem do ano passado. Ano passado foi muito castigado.”

A fumaça, porém, não reconhece fronteiras. Em 2023 e 2024, ela ultrapassou estados e chegou ao Amazonas durante as duas maiores secas já registradas. Foi nesse cenário que nasceu o Selva, um aplicativo desenvolvido integralmente pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA). O sistema monitora em tempo real a qualidade do ar a partir de sensores instalados em diversas cidades. Com o aplicativo, qualquer pessoa pode verificar, de casa, o que está respirando.

A nova versão, o Selva 2.0, amplia o alcance para além da região Norte. “A versão nova que a gente está lançando agora de outubro para novembro de 2025 traz algumas novidades, como por exemplo, ampliar o monitoramento para todo o Brasil e países da América do Sul”, explica Rodrigo Souza, coordenador do projeto.

Enquanto isso, algumas prefeituras começam a atuar na prevenção direta das queimadas. Em Parintins, ações de educação ambiental, incentivo à produção agrícola sem fogo e programas nas escolas já apresentam sinais de mudança, como relata Wescely Tavares, secretário de Meio Ambiente do município: “Os produtores acabam queimando o roçado por falta de implementação agrícola. Então, com a implementação do calcário e adubação, isso fica muito mais fácil. E vamos dentro das escolas também, não apenas com educação ambiental, mas com a implantação da coleta seletiva, para que ela esteja não só nas ruas, mas também dentro das unidades de ensino.”

Para especialistas, soluções tecnológicas como o Selva são estratégicas para integrar meio ambiente, saúde pública e planejamento urbano. A qualidade do ar está diretamente ligada à água, ao clima e à vida nas cidades.

“A floresta ajuda a equilibrar todo o meio ambiente de produção de água e de temperatura do Brasil e do mundo. Por isso é tão importante preservar a Amazônia”, reforça Luana Pretto, do Instituto Trata Brasil.

O Selva representa uma Amazônia que pensa o futuro. Uma iniciativa criada dentro de uma universidade pública, agora conectando pesquisadores de vários países e oferecendo à floresta uma ferramenta de expressão — uma forma de tornar visível aquilo que antes se dispersava no ar.

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