Quem chega a Parintins agora encontra um novo cartão de boas-vindas: esculturas espalhadas pela cidade que nasceram de materiais que antes poderiam ter ido para o lixo ou parar no igarapé.

O farol de uma moto virou olhos para um lagarto, uma pele de pneu revestiu um réptil, tubos de televisão formaram manchas de uma aranha gigante e garrafas PET deram vida a uma cobra que parece atravessar o asfalto. A arte feita por artistas locais não é apenas criativa — ela carrega um recado claro: é possível dar um novo destino ao que descartamos.

A iniciativa acompanha uma mudança de comportamento. Hoje, há menos resíduos espalhados pelas ruas da ilha. Mas, mesmo com avanços, o Rio Amazonas continua recebendo a poluição silenciosa que escorre das casas e se mistura à água sem ser vista a olho nu.
De acordo com análises apresentadas pelo químico Sérgio Duvoisin, da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), a qualidade da água piora após passar pela área urbana. “A condutividade piorou cerca de 20%, a turbidez quase 70% e houve aumento de cerca de 3 a 4% no nitrogênio total”, explicou. Em Juruti, o cenário é semelhante, com turbidez e condutividade também elevadas entre 16% e 20%.
A poluição se dilui no maior rio do planeta, o que esconde o problema — mas não o elimina. A ciência alerta: se nada mudar, o futuro das próximas gerações está ameaçado.
Para o prefeito de Parintins, Matheus Assayag, o caminho começa na sala de aula. A prefeitura aposta na educação ambiental para ensinar crianças a reciclar e separar o lixo. “Dentro das escolas, nós trabalhamos a consciência desde cedo, para que as próximas gerações vivam melhor no futuro”, afirmou.

Desde 2023, a qualidade da água se tornou tema permanente na Câmara Municipal. O IPAAM realiza inspeções frequentes. O coordenador Daniel Nava reforça que decisões ambientais devem ser guiadas por dados. “A ciência tem que estar ao lado da decisão. Essas expedições dão base para saber se uma atividade deve ou não ser licenciada”, destacou.
O Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAE) diz que o município está investindo no monitoramento e na substituição de poços, e que os problemas devem ser sanados até o início do próximo ano.
Outro desafio é o lixão da cidade. Segundo o secretário de Meio Ambiente, Wesley Tavares, estão em andamento tratativas para encerrar o despejo irregular e implantar um aterro controlado. “Buscamos uma solução definitiva para o descarte dos resíduos”, afirmou.

A Lei do Saneamento Básico, reforçada pelo Marco Legal de 2020, determina que até 2033 todos os municípios brasileiros devem garantir acesso universal à água potável e tratamento de esgoto. Mas, segundo o Instituto Trata Brasil, cidades da região Norte, como Parintins, Itacoatiara e Juruti, ainda têm um longo caminho até a meta. Enquanto o Sul e o Sudeste avançam com investimentos, o interior amazônico segue enfrentando dificuldades.
A expedição “Entre Rios e Vozes”, do Grupo Norte de Comunicação e da Universidade do Estado do Amazonas, reforça que há soluções — e que elas passam pela união entre ciência, educação e vontade política.
Entre arte e preservação, Parintins mostra que transformar é possível. O futuro da Amazônia depende de escolhas feitas agora — no lixo que descartamos, na água que consumimos e nas histórias que escolhemos contar.