Expressões como “brocado”, “de bubuia” e “só o cuí” fazem parte do vocabulário afetivo do povo amazonense, que luta para preservar suas origens linguísticas
Os amazonenses têm um jeito próprio de expressar emoções, sensações e até o humor. Seja para demonstrar fome, espanto ou apenas chamar a atenção, as gírias regionais fazem parte do cotidiano de quem vive no Amazonas — do “curumim” à “cunhantã”, passando pelos mais velhos. Essas expressões formam um verdadeiro dicionário da identidade local, reflexo da miscigenação que caracteriza o povo da região.
De acordo com o professor de Letras e mestre em Ciências Humanas, Rafael Amoêdo, as gírias amazonenses são símbolos da riqueza cultural do estado, mas correm o risco de perder espaço com o avanço da tecnologia e da comunicação digital.
“Há uma importância significativa em passar às novas gerações esses traços linguísticos, ainda mais em tempos em que a cultura digital modifica nossa comunicação. A variação regional nasce da miscigenação nortista, de um tempo anterior às tecnologias, e por isso pode parecer ultrapassada às novas gerações”, afirma o pesquisador.
Três raízes que moldaram o falar manauara
Amoêdo explica que a maneira de falar dos manauaras é resultado da influência de três povos: os portugueses, os nordestinos e os indígenas — sendo estes os que mais contribuíram para a formação do vocabulário local.
“O ‘S’ chiado vem da influência portuguesa. Dos nordestinos herdamos expressões como ‘leso’ e ‘esculhambado’, que adaptamos para ‘leseira baré’. E dos indígenas, temos palavras como ‘carapanã’, ‘ficar de bubuia’ e ‘só o cuí’”, detalha Amoêdo.
A influência indígena vai além das palavras. O próprio nome da capital, Manaus, tem origem na etnia Manaó, que habitava a região. A adaptação da grafia ao longo do tempo reflete o mesmo processo de transformação que ocorre com as gírias — expressões nascidas da criatividade popular e das analogias com o cotidiano.
Um exemplo citado pelo professor é a expressão “ticar bodó”, usada para questionar alguém que está agindo de forma confusa ou “maluca”.
“O bodó é um peixe de escamas duras, impossível de ser ticado (cutucado). Daí vem a associação com a ideia de loucura: só quem é doido tentaria fazer isso”, explica.
Um vocabulário que virou livro
A riqueza do linguajar amazonense é tanta que inspirou o livro “Amazonês: expressões e termos usados no Amazonas”, escrito pelo doutor em Linguística Sérgio Freire. A obra, lançada há mais de duas décadas, reúne cerca de 1.100 expressões e termos regionais, e é considerada uma espécie de dicionário informal do povo amazonense.
Preservar para não esquecer
Para Amoêdo, as gírias são uma forma de memória viva, e mantê-las é essencial para preservar a história da miscigenação que formou o Amazonas.
“Ensinar e divulgar esse vocabulário riquíssimo é fundamental para que ele não caia em desuso ou seja substituído por termos mais modernos”, ressalta.
O professor lembra ainda que a linguagem é um marcador de identidade social e está presente em todas as culturas.
“Cada região do mundo tem suas variações linguísticas. A língua é um fator de identificação e memória de um povo. O ‘kikão’, por exemplo, é uma palavra que não apenas representa um alimento típico, mas também uma forma de reafirmar nossa cultura”, conclui.
Confira algumas expressões típicas do Amazonas
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Brocado: com fome.
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De bubuia: descansando, sem fazer nada.
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Leso: alguém desatento ou que faz besteira.
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Carapanã: mosquito.
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Kikão: nome regional do cachorro-quente.
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Dindim: doce gelado, conhecido em outras regiões como sacolé ou chup-chup.
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Maceta: algo muito grande.
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Até o tucupi: algo lotado, cheio de gente.
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Fuleiro: algo que quebra fácil, de má qualidade.
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Mano/Mana: forma carinhosa de chamar alguém.
