Do Amazonas a Niterói: ‘Itacoatiaras’ Mostra Conexões Entre Territórios e Legados Culturais

Documentário 'Itacoatiaras' conecta dois territórios brasileiros e reflete sobre ancestralidade e natureza.
Redação Amazônia Incrível
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‘Itacoatiaras’ estreia em Estocolmo e no Festival do Rio, conectando dois territórios brasileiros e refletindo sobre ancestralidade e natureza.

O documentário “Itacoatiaras”, dirigido pelo cineasta amazonense Sérgio Andrade e pela artista carioca Patricia Goùvea, estreará mundialmente no 11º Panorámica – Stockholm Latin American Film Festival, em Estocolmo, no dia 28 de setembro de 2025. A estreia brasileira ocorrerá na 27ª edição do Festival do Rio, entre 2 e 12 de outubro, na Mostra O Estado das Coisas | Especial COP 30.

Com 73 minutos de duração, o filme estabelece um diálogo entre dois territórios com o mesmo nome: o bairro de Itacoatiara, em Niterói (RJ), e o município de Itacoatiara, no interior do Amazonas. A obra aborda temas como ancestralidades indígenas apagadas pela colonização, especulação imobiliária e fragilidades ambientais do Brasil, conectando passado, presente e futuro.

O projeto nasceu de um encontro artístico transformador. Patricia Goùvea relembra como a ideia do filme surgiu a partir de uma experiência de residência artística no Amazonas, onde conheceu Sérgio Andrade e sentiu uma conexão imediata com o território e a natureza.

“Esse filme surge a partir do encontro entre eu e o Sérgio, em 2017, na residência artística Lab Verde, que acontece anualmente no Amazonas. É uma residência liderada pela Lilian Fraiji. É uma residência internacional, é uma seleção internacional onde artistas de várias partes do mundo passam dez dias no Instituto Nacional de Pesquisas Amazônicas, na Reserva Adolfo Ducke, no município de Itacoatiara. E o Sérgio, em 2017, era o artista convidado – nessa residência sempre tem um artista da Amazônia, do Amazonas, que é convidado”.

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A curiosidade sobre como dois lugares com o mesmo nome poderiam existir no Brasil levou Patricia e Sérgio a investigar as histórias desses territórios, entrelaçando memórias pessoais, ancestralidade e experiências de vida:

“Dali surgiu uma amizade instantânea, arrebatadora, profunda. E a gente ali, dentro da reserva, começou a se perguntar como poderiam existir duas Itacoatiaras no Brasil, separadas por cerca de seis mil quilômetros de distância no mapa. A Itacoatiara de Niterói e a Itacoatiara onde a gente estava. E o Sérgio também conhecia essa Itacoatiara de Niterói porque fez faculdade no Rio e frequentava muito a Itacoatiara, que é onde moro. Há três anos. Mas que é o meu santuário, que é a minha vida toda desde criança, desde os dois anos de idade, quando o meu pai e o meu padrinho, ainda numa época em que não existia a ponte Rio-Niterói, chegar aqui era uma grande aventura. Eles chegaram aqui, nessa Itacoatiara, que era um território selvagem. No início da década… A ponte Rio-Niterói foi construída em 1973. Então, eles chegaram ainda sem a ponte Rio-Niterói aqui. E eles são dessa primeira leva de pessoas, talvez a primeira ou segunda leva de pessoas que se apaixonaram e compraram o terreno aqui. Então, fui criada em Itacoatiara. Todas as minhas férias… Sempre foi o meu santuário, sempre foi com essas pedras, com essas montanhas, que eu sempre conversei a minha vida toda, que eu sempre aprendi e que eu sempre tive uma conexão que eu não sabia explicar. Algo da ordem mística, espiritual”.

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O processo criativo se aprofundou quando Sérgio passou um longo período no Rio de Janeiro, permitindo que a dupla explorasse a relação entre os dois territórios e desenvolvesse a narrativa do documentário:

“Logo em seguida, o Sérgio veio para o Rio de Janeiro, passou uma longa temporada no Rio, entre 2017 e 2018, porque ele estava montando aqui no Rio de Janeiro o terceiro longa dele. E aí a gente começou a pensar que deveriam existir laços entre esses dois, entre aspas, locais. A gente fala de território. Local é algo que simplifica muito tudo o que esses dois territórios engendram. A gente começou a se perguntar, começou a pensar em fazer algo sobre isso. Em 2019, eu e o Sérgio fizemos uma viagem juntos, uma viagem longa pelo México, no final de 2019. E a gente entra em uma cidade ou outra, que a gente ia de ônibus, de longos trajetos de ônibus. Começamos a escrever uns esboços de roteiro do que poderia ter vontade de fazer”.

A chegada da pandemia também marcou o aprofundamento da pesquisa e da conexão de Patricia com o território, além de influenciar o crescimento do projeto de média-metragem para longa:

“Na época, ainda era um projeto de média-metragem. E aí a gente voltou dessa viagem. No início de 2020, a gente começou a escrever em vários editais que não foram adiante. Logo depois veio a pandemia e eu vim morar aqui. Eu vim para cá, me refugiar aqui, porque eu não dei conta de ficar no Rio de Janeiro, desesperada, com uma filha pequena. E aqui eu encontrei toda a cura que eu precisava. Eu me conectei ainda mais a esse território, comecei a estudar mais, comecei a… É muito diferente viver aqui, viver todo dia. Comecei a mergulhar no meu jardim, nas plantas do meu jardim. Enfim, foi uma viagem, um momento sensorial também muito importante”.

Durante o ano de 2020, Patricia aprofundou suas pesquisas sobre os territórios, explorando questões históricas, ambientais e culturais que permeiam o documentário. Ela explica a importância de compreender os apagamentos indígenas e o papel das paisagens na construção da memória coletiva:

“E aí a gente passou o ano de 2020 trocando on-line. Eu comecei a fazer pesquisa e eu sou fascinada, talvez uma das coisas que eu mais gosto de fazer na vida. A gente foi escrevendo, montou uma pequena equipe on-line, né, de produção, que envolvia o Henrique Amudi, o Lucas Rossi, que foi diretor de produção, o montador do filme, uma figura, assim, seminal, que agregou muitos outros amigos. E a gente foi escrevendo vários editais até que, no final de 2020, a gente ganhou o primeiro prêmio”.

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A pesquisa incluiu também o levantamento de dados sobre a presença indígena em Niterói e os vestígios históricos destruídos pelo tempo e pela colonização, simbolizando a força da natureza e a conexão humana com o território.

“Essa questão das emergências climáticas, da destruição dos recursos, porque esse filme tem essa aproximação sensorial de dois territórios aparentemente tão distintos, a Itacoatiara amazônica, ribeirinha, com esse rio tão importante, e a Itacoatiara oceânica, onde eu me encontro, que é um pequeno bairro de Niterói, mas, ao mesmo tempo, as histórias se repetem, as histórias são as mesmas, as histórias são histórias de resistência, histórias de como a gente, que modelo a gente vai adotar para o nosso futuro, o que a gente vai deixar para as crianças, o que a gente está deixando para as novas gerações. Então o filme tem muitas crianças e as crianças fazem parte do filme por trás das câmeras, tanto eu tenho uma filha pequena, o Lucas com a filha dele por trás das câmeras, e muitas crianças fazem parte do filme, porque também tem uma discussão, que é isso, a gente pensar a maternidade não só como algo que diz respeito a mulheres ou pessoas que gestam, mas que a maternidade precisa ser coletiva, o cuidado com as crianças precisa ser coletivo, a maternidade é algo que precisa ser da ordem coletiva”.

A ideia de maternidade coletiva e cuidado com o planeta permeia toda a obra, reforçando a mensagem de que a construção de novos mundos depende de pequenas ações conjuntas.

“Os povos originários também já falam isso desde sempre, é necessário uma aldeia para criar uma criança e esse modelo neoliberal que está imperando no mundo também está destruindo o cuidado com as crianças, e que a gente pensar numa ideia de maternidade expandida, desde as crianças até o cuidado com o planeta, o cuidado, o que a gente vai fazer da nossa terra, o que a gente vai fazer com Gaia, a nossa terra, mãe. Então o filme, de forma poética, sensorial, afetiva, ele quer trazer essas questões para que nós todos possamos pensar juntos o que a gente quer deixar para as próximas gerações, porque o modelo que a gente tem se exauriu”.

O projeto, inicialmente concebido como média-metragem, ganhou fôlego e se tornou um longa-metragem, graças à carga emotiva, conceitual e afetiva que os temas levantam. Patricia ressalta ainda que a produção foi resultado de um trabalho coletivo, reunindo amigos e colaboradores que se envolveram profundamente com a história:

“Basicamente a gente tinha um projeto de média-metragem, com recursos de curtametragem, acabou virando um longa-metragem, porque a carga emotiva e conceitual e afetiva que o filme levanta é muito forte”.

“O fato é, é um trabalho realmente coletivo, não só entre eu e ele, mas com toda a equipe, porque realmente assim, foi um trabalho construído a muitas mãos, foram muitos amigos de amigos de amigos que se uniram para fazer esse filme, porque se encantaram pela história”.

O documentário também destaca questões ambientais e climáticas que conectam os dois territórios, mostrando a repetição das histórias e a importância de pensar em futuro, resistência e cuidado com o planeta.

“Acho que a ideia do filme é isso, como a gente pode criar novos mundos nesse mundo em que a gente está em ruínas, ao invés de a gente ficar fixado na destruição e na ruína, como que a gente pode criar novos mundos possíveis, como que a gente pode coletivamente pensar novas estratégias com mínimos gestos para poder a gente regenerar o planeta, a gente poder ter a chance, na verdade, de nós sobrevivermos, porque a gente sabe que a natureza vai se regenerar. Nós é que não vamos estar aqui para ver isso, nós seremos destruídos, nós, categoria humana”.

Produzido pela Rio Tarumã Filmes, de Manaus, em parceria com a Arapuá Filmes, do Rio de Janeiro, o longa contou com apoio das Leis Aldir Blanc e Paulo Gustavo. As filmagens, iniciadas em 2021, registraram eventos climáticos extremos, como secas e cheias históricas no Amazonas, reunindo profissionais do Rio e da Amazônia, incluindo a fotógrafa Valentina Ricardo.

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